“Eu não uso somente as gavetas para guardar recordações. Eu uso os bolsos dos casacos, da calça. Os fechos da mochila, o fundo da mala. O que eu mais gosto é me comover a toa com uma lembrança antiga. É de repente colocar um casaco, colocar um terno, sem querer mexer no bolso e encontra sua memória viva e reconstituir o endereço e o sentido daquele bilhetinho. A vida é feita de várias repescagens. Não guardo tudo num único lugar. Guardar em um único lugar é túmulo. Deixe a sua vida espalhada pela casa.”
- Fabrício Carpinejar
Anonymous asked: pô, que saudade!

oiiii, sim vc sumiu

“Você foi covarde. Seu amor é forte, seu corpo é fraco. Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou não vem. Não posso amaldiçoar sua covardia. Você foi covarde. Pela gentileza de sempre dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo. Já desfrutei de sua covardia, ríspido recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhido. Não aquecerei seu prato para servi-la. Não a ajudarei no parto. Não partirei. Serei aquele que deveria ter sido, enterrado sem morrer, o que desapareceu permanecendo perto. Sou seu constrangimento mais alegre. Sua ferida, seu feriado. Com o tempo, serei sua vontade de se calar. De se retirar da sala. Não conhecerá meus hábitos de puxar o café antes de ficar pronto. De abrir as venezianas como quem procura reunir os chinelos ao vento. Você foi covarde, ninguém iria compreendê-la. Hoje todos a compreendem, menos você mesma. Você não se compreende depois disso. O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. Sua esperança não diminui a covardia. Quer um conselho? Finge que a dor que sente é a minha para entreter sua dor. Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido. Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo amor com loucura. Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer que fez o melhor, fez o que podia. Você me avisou que não tinha escolha. Nunca teria escolha. Você foi educada com a vida, pediu licença, agradeceu os presentes. Confiou que a vida logo a entenderia. E cederia. Engoliu uma palavra para dormir. Não serei vizinho de seu sobrenome. Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás. Você não desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras. Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber. Você foi covarde. Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez em cumprir as promessas. Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a dizer a verdade. O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado. O dia está lento e não haverá movimento nas ruas. Você não revidou nenhuma das agressões, não revidará mais essa. Você foi covarde. A mais bela covardia de minha vida. A mais comovida. A mais sincera. A mais dolorida. O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o que restou de você em mim.”
- Fabricio Carpinejar
“Eram dez horas da noite. A lua estava cheia e minha vida não tinha sentido.”
- Charles Bukowski 
“Fica, eu digo. Me ajuda a matar o tempo até a luz voltar. Fica e come da minha comida. Pelo menos até a chuva acabar de cair. Deu agora na televisão que a cidade está debaixo d’água, mandaram ninguém se mexer. Consegue? Tenta, vai. Empresto uma toalha, uma camiseta G, um par de meias e a minha boca quente. Você já bateu recorde de permanência, de toda maneira. Vamos lá, fica, na minha geladeira tem o resto de um frango de padaria, a gente abre um vinho bom. Juro fazer rolinhos na sua franja até você pegar no sono. Aí você gasta um de seus preciosos sins e deixa pra depois mais um daqueles seus adeus, que, aliás, tem de sobra na sua bolsa de pano, sempre à mão, para casos de emergência. E eu me pergunto: você vai ficar porque está chovendo, ou está chovendo porque você vai ficar? Tanto faz.”
- Gabito Nunes 
“Eu queria tanto, mas a gente nunca sabe se vai durar uma noite ou uma vida toda.”
- Gabito Nunes 
“Rimas. Ri mais? Rir, mas de quê? Talvez um quê de queijo, um bê de beijo. Beijo vai, mas bem jovem. Então vem! Nu mesmo, vem nuvem, vem. Mas vem sem. Sem vergonha, sem pudor, sem graça, sem açúcar e sentimento. Se sentir, não vou deixá-lo ir. Sem ir, sem ti, eu não vou a lugar nenhum, nem dois, nem três e nem quartos. Por que mentes? Ah, que mentes não sentiriam saudades doentes… Do ente querido, do ente que queria ter ido, do ente que quase foi. Ufa, e foi por pouco. Já anoiteceu. A noite teceu estrelas, estralos, entranhas e estranhos. A noite teceu trapézios trapezistas, trôpegos, traficantes, trapaceiros e tresloucados. Também temor. Ter amor, amoras, amantes, amarelos… Ah, não. Amá-los ou amar elos? Meio a meio, meio fio, meio feio, meio feito. Essa história meio fora de hora de novo? Sim. De novo, de novo e de manhã, de tarde, de velho, de ontem, de frente, defronte e de ré. Ré é renascer renascentista, iluminista, sulista, turista, budista, autista. Arista? Mundano! Mundo mudo muda mudas. Mudas de gente descrente, descontente, demente, indecente, decadente, ai! Dor de dente, dor de gente. E quem cura? Loucura.”
- Cinzentos 

Aí lembro daquela do Los Hermanos. Canto ela um pouco, baixinho, fitando nada. Você grita que adora essa. Eu me assusto. Não por gostar dessa, mas pelo grito. Eu já sabia. Agora vai lembrar de mim sempre que escutar. Ou seja, quase sempre. Aí eu canto como quem não quer nada, querendo tudo ‘Até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei…’. Você finge não entender.

Gabito Nunes

Anonymous asked: Até parece que você não sabe quem eu sou. Eu sou aquele garoto que você despresou quando tinha 15 anos. Agora estou bombado, sexy e lindo. Mesmo assim não consegui tirar você da cabeça.

SOCORRRRRO KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK sério, quem é?

“Se não fossem as minhas malas cheias de memórias ou aquela história que faz mais de um ano, não fossem os danos, não seria eu. Se não fossem as minhas tias com todos os mimos ou se eu menino fosse mais amado, se não desse errado não seria eu. Se o fato é que sou muito do seu desagrado, não quero ser chato mas vou ser honesto, eu não sei o que você tem contra mim, você pode tentar por horas me deixar culpado mas vai dar errado já que foi o resto da vida inteira que me fez assim, se não fossem os ais e não fossem a dor e essa mania de lembrar de tudo feito um gravador. Se não fosse Deus bancando o escritor, se não fossem o mickey e as terças-feiras e os ursos pandas e o andar de cima da primeira casa em que eu morei e dava pra chegar no morro só pela varanda, se não fosse a fome e essas crianças e esse cachorro e o Sancho Pança, se não fosse o Koni e o Capitão Gancho, não seria eu.”
- Clarice Falcão